terça-feira, 29 de novembro de 2011

Contos e Desencontros



- Querido....
- Humm...
- Posso fazer uma pergunta?
- O que foi? responde o marido, sem tirar os olhos do jornal.
- Há quanto tempo fizemos aquela viagem a Paris?
- Não sei meu bem... Sei lá, talvez uns 10, 12 anos.
- Ah...

Alguns minutos depois o marido pergunta:
- Por que queria saber?
- Saber do que?
- De Paris, oras! Não era sobre o que estávamos conversando?
- Ah sim – responde a mulher, agora entretida com a novela.
- E então?
- É que estava pensando quanto tempo faz que não tiramos um tempinho só para nós. Minha última lembrança foi a viagem para Paris.
- Ah... - agora foi a vez do marido responder na linguagem dos monossílabos.

Seguem-se os minutos, naquele quase silêncio das atividades caseiras de final de expediente. Até que o marido diz:
- Mas amor, e quando fomos para Foz do Iguaçú no ano passado?
- Não conta.
- Por que não conta meu bem?
- Porque você só quis ir para lá pra trazer muamba do Paraguai. E digo mais, Paraguai já era. A gente devia ter ido pra Miami, lá sim tem muamba de boa qualidade!
- Poxa benzinho, não fala assim...
- Se tivesse me levado pra Miami, não falava assim!
- Tá bom, deixa pra lá.

A mulher saiu e foi preparar o jantar. Ou melhor, a janta, neste caso. A diferença entre jantar e janta é que o primeiro tem uma solenidade, exige certa preparação dos participantes para degustação e apreciação correta, mesmo sendo este feito em casa. Já o segundo é o que a mulher foi preparar naquele momento.
O marido continuou lendo seu jornal, afinal de contas esta era a única hora em que podia se dedicar à atualização de seus conhecimentos de assuntos gerais, atualidades e outras frivolidades da vida cotidiana.
- Vem jantar!
- Já estou indo.

Sentados à mesa, cada qual com seu prato e pensamentos, eis que a mulher interrompe aquela sinfonia de grunchs, nhocs, zipts e afins:
- Sabe meu bem, queria que a gente fizesse outra lua-de-mel.
- É?
- É!
- É, pode ser. Realmente a gente se divertiu bastante na nossa, minha linda.
- Sim, eu tenho ótimas lembranças! Ah, faz mais de 25 anos, mas lembro como se fosse hoje.
- Vinte e cinco? Não são vinte e oito – corrigiu o marido.
- Imagina! Eu lembro muito bem que há vinte e cinco anos estávamos em Nova Iorque, andando no Central Park de carruagem...
- Nova Iorque? Você ficou louca mulher? Passamos nossa lua-de-mel em Lisboa, às margens do Tejo, com um vinho do Porto que me deixa meio bêbado até hoje, só de lembrar!
- Otávio, deixa de falar besteira! Que papo é esse de Lisboa? Tá ficando lelé da cabeça?
- Otávio, que Otávio? Quem é Otávio, Maria Luisa?
- Otávio é você homem de Deus! Agora, QUEM É Maria Luisa?
- Como assim Maria Luisa? Você bateu com a cabeça hoje? Troca meu nome e ainda não sabe o seu? Esqueceu que eu me chamo Adilson? Quer que eu chame um médico?
- Só se for pra você Otávio! Troca meu nome e agora quer me enlouquecer? Pois meu bem, euzinha S-O-N-I-A não caio nessa não! Sem vergonha!!!

...continua amanhã

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