quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Contos e Desencontros 2


Parte 1, clica aqui


Daí foi uma sucessão de *#$%, piiiii, tum, soc, pow, e outras coisas irreproduzíveis, até que num lampejo de sei-lá-o-que, um dos dois disse:
- Tira a aliança!
- Pra que?
- Pra você ver o meu nome. É a prova que eu não estou louco!

Tiraram as alianças. Cada qual olhou o nome que estava gravado em sua respectiva prova irrefutável de sanidade mental.
E o espanto. Nenhum dos dois estava louco. Ou melhor, nenhum dos dois estava são. As alianças testemunhavam ali, gravados a ferro e fogo, os nomes Otávio e Maria Luisa. Justo aqueles nomes que não pertenciam a nenhum dos presentes na cena.
Então os dois ficam paralisados por alguns minutos, pensando ‘que diabos é isso que tá acontecendo aqui afinal?’, tentando encontrar algum sentido praquilo tudo.

- Amor, deixa ver se entendi... Você não é o Otávio e eu não sou a Maria Luisa.
- Certo...
- Mas eu casei com o Otávio... Quem é você?
- Eu sou quem casou com a Maria Luisa... Não conheço nenhuma Sonia.
- Então péra lá... Obviamente não casamos um com o outro.
- Concordo.
- Mas fomos para Paris?
- Sim, disso eu me lembro. Deixa eu procurar as fotos.

Depois de procurar nas caixas e caixas de papéis, recordações, fotos, coisas antigas e demais acumuladores de pó, o marido volta.
- Aqui as fotos, vamos ver.
Olharam bem cada foto. Inclusive lembraram-se de causos, destes que só acontecem com quem está viajando sem compromisso e sem obrigação de se divertir, e por isso se diverte muito mais.
- Lembra do cachorro que roubou a baguete que você estava segurando Otávio? Quer dizer, Adilson. Quer dizer, sei lá quem você é, mas lembra disso?
- Claro que lembro. Foi logo depois que tiramos esta foto na Champs Elisè. Olha só como eu tinha mais cabelo.
- Então realmente viajamos para Paris, e isso há quanto tempo?
- Dez, doze anos, já não lembro mulher.
- E não casamos um com o outro?
- Definitivamente não.
- Mas estamos juntos desde então?
- Tudo indica que sim...
- O que aconteceu então, pelamordedeus, você consegue explicar?
- Olha meu bem, explicar eu não consigo... Mas pensando bem agora, lembrei de um fato curioso. Aconteceu há muito tempo atrás.
- Pois conta!
- Teve uma festa, daquelas de arromba que só o Uilsinho Vareta era capaz de produzir. Lembra do Vareta?
- Não, mas já ouvi este nome.
- Então, esta festa do Vareta foi a coisa mais louca que vi na vida. Tava todo mundo louco, oba, como se os maias tivessem previsto que o fim do mundo ia acontecer naquela noite.
- Sei...
- Inclusive, falando agora, lembrei que tinha mesmo um Otávio nesta festa. Coincidência, né?
- Tá, continua...
- Bom, o que eu sei é que não lembro como acabou a festa. Mas não tinha como acabar bem, já que uma das últimas coisas que lembro de ter visto foi uma mulher dependurada no lustre, gritando que era a Jane, enquanto outro alguém jurava de pé junto que era um helicóptero.
- Só sei que acordei em casa. Mas achei algumas coisas estranhas em casa. Por exemplo, sempre achei que o sofá fosse de couro e não de estampa de flor. Também achei estranho você dormir do lado direito da cama.
- Mas eu sempre dormi do lado direito da cama!
- É, mas eu pensei que talvez você tivesse acordado com vontade de mudar de lado e mudou desde então. O sofá eu achei que fosse uma surpresa, mas nunca perguntei.
- Você está querendo dizer...
- Isso mulher. Eu estou querendo dizer que tenho quase certeza que acordei na casa errada depois daquela festa! Mas achei que era tudo efeito colateral da química do Vareta. Foi passando uma semana, duas, daí fui me acostumando novamente e a vida voltou a ser o que eu achei que era o normal!

... continua amanhã

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Contos e Desencontros



- Querido....
- Humm...
- Posso fazer uma pergunta?
- O que foi? responde o marido, sem tirar os olhos do jornal.
- Há quanto tempo fizemos aquela viagem a Paris?
- Não sei meu bem... Sei lá, talvez uns 10, 12 anos.
- Ah...

Alguns minutos depois o marido pergunta:
- Por que queria saber?
- Saber do que?
- De Paris, oras! Não era sobre o que estávamos conversando?
- Ah sim – responde a mulher, agora entretida com a novela.
- E então?
- É que estava pensando quanto tempo faz que não tiramos um tempinho só para nós. Minha última lembrança foi a viagem para Paris.
- Ah... - agora foi a vez do marido responder na linguagem dos monossílabos.

Seguem-se os minutos, naquele quase silêncio das atividades caseiras de final de expediente. Até que o marido diz:
- Mas amor, e quando fomos para Foz do Iguaçú no ano passado?
- Não conta.
- Por que não conta meu bem?
- Porque você só quis ir para lá pra trazer muamba do Paraguai. E digo mais, Paraguai já era. A gente devia ter ido pra Miami, lá sim tem muamba de boa qualidade!
- Poxa benzinho, não fala assim...
- Se tivesse me levado pra Miami, não falava assim!
- Tá bom, deixa pra lá.

A mulher saiu e foi preparar o jantar. Ou melhor, a janta, neste caso. A diferença entre jantar e janta é que o primeiro tem uma solenidade, exige certa preparação dos participantes para degustação e apreciação correta, mesmo sendo este feito em casa. Já o segundo é o que a mulher foi preparar naquele momento.
O marido continuou lendo seu jornal, afinal de contas esta era a única hora em que podia se dedicar à atualização de seus conhecimentos de assuntos gerais, atualidades e outras frivolidades da vida cotidiana.
- Vem jantar!
- Já estou indo.

Sentados à mesa, cada qual com seu prato e pensamentos, eis que a mulher interrompe aquela sinfonia de grunchs, nhocs, zipts e afins:
- Sabe meu bem, queria que a gente fizesse outra lua-de-mel.
- É?
- É!
- É, pode ser. Realmente a gente se divertiu bastante na nossa, minha linda.
- Sim, eu tenho ótimas lembranças! Ah, faz mais de 25 anos, mas lembro como se fosse hoje.
- Vinte e cinco? Não são vinte e oito – corrigiu o marido.
- Imagina! Eu lembro muito bem que há vinte e cinco anos estávamos em Nova Iorque, andando no Central Park de carruagem...
- Nova Iorque? Você ficou louca mulher? Passamos nossa lua-de-mel em Lisboa, às margens do Tejo, com um vinho do Porto que me deixa meio bêbado até hoje, só de lembrar!
- Otávio, deixa de falar besteira! Que papo é esse de Lisboa? Tá ficando lelé da cabeça?
- Otávio, que Otávio? Quem é Otávio, Maria Luisa?
- Otávio é você homem de Deus! Agora, QUEM É Maria Luisa?
- Como assim Maria Luisa? Você bateu com a cabeça hoje? Troca meu nome e ainda não sabe o seu? Esqueceu que eu me chamo Adilson? Quer que eu chame um médico?
- Só se for pra você Otávio! Troca meu nome e agora quer me enlouquecer? Pois meu bem, euzinha S-O-N-I-A não caio nessa não! Sem vergonha!!!

...continua amanhã