Daí foi uma sucessão de *#$%, piiiii, tum, soc, pow, e
outras coisas irreproduzíveis, até que num lampejo de sei-lá-o-que, um dos dois
disse:
- Tira a aliança!
- Pra que?
- Pra você ver o meu nome. É a prova que eu não estou louco!
Tiraram as alianças. Cada qual olhou o nome que estava
gravado em sua respectiva prova irrefutável de sanidade mental.
E o espanto. Nenhum dos dois estava louco. Ou melhor, nenhum
dos dois estava são. As alianças testemunhavam ali, gravados a ferro e fogo, os
nomes Otávio e Maria Luisa. Justo aqueles nomes que não pertenciam a nenhum dos
presentes na cena.
Então os dois ficam paralisados por alguns minutos, pensando
‘que diabos é isso que tá acontecendo aqui afinal?’, tentando encontrar algum
sentido praquilo tudo.
- Amor, deixa ver se entendi... Você não é o Otávio e eu não
sou a Maria Luisa.
- Certo...
- Mas eu casei com o Otávio... Quem é você?
- Eu sou quem casou com a Maria Luisa... Não conheço nenhuma
Sonia.
- Então péra lá... Obviamente não casamos um com o outro.
- Concordo.
- Mas fomos para Paris?
- Sim, disso eu me lembro. Deixa eu procurar as fotos.
Depois de procurar nas caixas e caixas de papéis, recordações,
fotos, coisas antigas e demais acumuladores de pó, o marido volta.
- Aqui as fotos, vamos ver.
Olharam bem cada foto. Inclusive lembraram-se de causos,
destes que só acontecem com quem está viajando sem compromisso e sem obrigação
de se divertir, e por isso se diverte muito mais.
- Lembra do cachorro que roubou a baguete que você estava
segurando Otávio? Quer dizer, Adilson. Quer dizer, sei lá quem você é, mas
lembra disso?
- Claro que lembro. Foi logo depois que tiramos esta foto na
Champs Elisè. Olha só como eu tinha mais cabelo.
- Então realmente viajamos para Paris, e isso há quanto
tempo?
- Dez, doze anos, já não lembro mulher.
- E não casamos um com o outro?
- Definitivamente não.
- Mas estamos juntos desde então?
- Tudo indica que sim...
- O que aconteceu então, pelamordedeus, você consegue
explicar?
- Olha meu bem, explicar eu não consigo... Mas pensando bem
agora, lembrei de um fato curioso. Aconteceu há muito tempo atrás.
- Pois conta!
- Teve uma festa, daquelas de arromba que só o Uilsinho
Vareta era capaz de produzir. Lembra do Vareta?
- Não, mas já ouvi este nome.
- Então, esta festa do Vareta foi a coisa mais louca que vi
na vida. Tava todo mundo louco, oba, como se os maias tivessem previsto que o
fim do mundo ia acontecer naquela noite.
- Sei...
- Inclusive, falando agora, lembrei que tinha mesmo um
Otávio nesta festa. Coincidência, né?
- Tá, continua...
- Bom, o que eu sei é que não lembro como acabou a festa.
Mas não tinha como acabar bem, já que uma das últimas coisas que lembro de ter
visto foi uma mulher dependurada no lustre, gritando que era a Jane, enquanto
outro alguém jurava de pé junto que era um helicóptero.
- Só sei que acordei em casa. Mas achei algumas coisas estranhas em casa. Por exemplo,
sempre achei que o sofá fosse de couro e não de estampa de flor. Também achei
estranho você dormir do lado direito da cama.
- Mas eu sempre dormi do lado direito da cama!
- É, mas eu pensei que talvez você tivesse acordado com
vontade de mudar de lado e mudou desde então. O sofá eu achei que fosse uma
surpresa, mas nunca perguntei.
- Você está querendo dizer...
- Isso mulher. Eu estou querendo dizer que tenho quase
certeza que acordei na casa errada depois daquela festa! Mas achei que era tudo
efeito colateral da química do Vareta. Foi passando uma semana, duas, daí fui
me acostumando novamente e a vida voltou a ser o que eu achei que era o normal!
... continua amanhã